A fratura exposta dos aeroportos brasileiros

“Depois que o ladrão entra na casa é que o morador instala as trancas”, diz a sabedoria popular. E foi o que aconteceu em Viracopos, depois que um velho MD-11 da empresa aerea de cargas norte-americana Centurion Air empacou, com um pneu estourado, na única pista do aeroporto de Viracopos (SP) no sábado, dia 13, às 20h40.

O incidente só foi resolvido em 46 horas, quando foi, afinal, possível remover a gigantesca aeronave e desbloquer o aeroporto com equipamentos trazidos de São Carlos pela TAM.

Tarde demais: no meio do fim de semana prolongado por um feriado, 416 voos foram cancelados e cerca de 25 mil passageiros foram prejudicados, a maior parte deles usuários da Azul Linhas Aéreas.

Depois disso, a concessionária Aeroportos do Brasil, que opera o aeroporto de Viracopos em conjunto com a Infraero, diz que passou a “estudar” a compra de equipamentos de resgate para aeronaves de grande porte, o “recovery kit”, que custa cerca de US$ 2 milhões.

Se qualquer avião comercial custa bem mais do que isso, como é que todos os aeroportos, como condição prévia de funcionamento, não são obrigados a ter carretas e colchões de ar apropriados lidar com acidentes como o que aconteceu com o MD-11 da Centurion?

Já pensou, se tal incidente, ao invés de acontecer no pouso de um velho cargueiro cheio de aparelhos eletrônicos, tivesse acontecido com uma aeronave lotada de passageiros?   

O fato expõe ao menos duas mazelas brasileiras: 1. a má gestão dos aeroportos brasileiros, que, em geral, não tem meios próprios para remover um avião de grande porte de pneu furado; e 2. as condições em que opera Viracopos, cuja capacidade está próxima de estar no limite. Em 2011, cerca de 7,5 milhões de passageiros usaram tal aeroporto; neste ano, estima-se que por lá devam passar 11 milhões de usuários.

A pergunta é: o que acontecerá no Brasil se não forem feitos investimentos de infraestrutura a tempo da  Copa do Mundo de 2014 e para os Jogos Olímpicos de 2016?

O ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, afirmou que o governo federal vai anunciar regras para novas concessões aeroportuárias (e portuárias) logo após o segundo turno das eleições municipais, que acontecem no próximo dia 28.

Mas haverá tempo hábil? E o que acontecerá com a Infraero, a estatal que dirige a maior parte dos aeroportos do país? Há quem diga que não adianta a criar uma outra empresa pública, a anunciada “Infrapar”, para participar da gestão dos aeroportos de Viracopos e de Guarulhos e, também, para o aeroporto de Brasília. Para sair do atraso e driblar o caos aereo que ronda a quase totalidade dos aeroportos brasileiros é preciso, além de gastar dinheiro público, investir numa nova mentalidade de gestão aeroportuária.

 E se as providências não forem tomadas com competência e celeridade, não adiantar vai chorar quando o Brasil mostrar a sua face bagunçada e leniente ao mundo todo durante os megaeventos que pretende hospedar em 2014 e em 2016.                                                    

Fonte: Folha de São Paulo

POR SILVIO CIOFFI

19/10/12 17:59

 

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